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© Felipe Nepomuceno 2012

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O Marciano

Publicado em 1997 pela 7 Letras.

  

TEMIXCO

 

Pouca gente lembra de Temixco,

cidade onde caminhavam escritores,

novelas grandes e amarelas.

 

Depois do jogo de oitenta e dois,

homens com barba desligaram radios.

 

O veneno do escorpião

era o único antídoto para Telefunken.

 

A água da piscina mexeu sozinha.

Eles foram embora.

 

A NOITE CLARA NO TETO

 

Horas não contém

ausência ou intervalo.

A memória demora,

enquanto a noite clara no teto

ofusca desencontros,

sua janela aberta.

 

LARANJÓPOLIS

 

Aonde estará você,

quando eu vestir o corpo

num velho sem motivos?

 

Nos encontraremos na fila

do filme Americano?

 

Ou em degraus quentes

de arquibancada?

 

MADRID

 

Capital,

Os madrilenhos falam espanhol

e não fotografam o Mediterrâneo.

Os clubes: Real e Atlético.

Os museus: Reina Sofia,

Thyssen Bornemisza,

Del Prado, del Jamón.

 

O rei festeja

perto da ponte dos suicidas.

 

Nesta cidade sem oceanos

existe uma estátua para Netuno.

 

A rua del Camino de la Luna

nunca faz esquina

com a Amor de Dios.

 

SÃO JOSÉ DOS CAMPOS

 

Centro físico,

São José virou lembrar.

Velhos enigmáticos fumam cachimbo,

netos, saudades do ipê-amarelo. 

 

LAGOA SANTA

 

Quebra-molas, base da aeronáutica.

No tempo em que nada disso existia,

futuro avô atravessava lagoa nadando

e da onda nasceu Martha.

 

Bagre não é piaba,

e o entregador de cervejas

destruiu amores que pareciam eternos.

 

Todo jovem conhece Lagoa Santa,

mas nem todos se dão conta.