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© Felipe Nepomuceno 2012

Desenvolvido com Pixfolio

Mapoteca

Coletânea de poemas e contos,

publicada pelas editoras 7 Letras e Cosac Naify, na Coleção Ás de Colete, 2009.

 

SANTO AMARO

 

E se amor dá mesmo

voltas é porque

Oxóssi, perfume,

a neblina aqui é pedra,

tatuagem, Santo Amaro.

 

SANTO AMARO NÚMERO DOIS

 

Trilho é avenida

e o rio e

a avenida cruza

esta calmaria perdida.

 

SANTO AMARO NÚMERO TRÊS

 

O bistrô, maternidade,

a cidade quer navegar

pelo mundo, um amor só

é verdade quando abraça

assim:

 

tua centopéia de chumbo.

 

SANTO AMARO NÚMERO QUATRO

 

1.

As folhas

rastejam que nem cobra:

 

entram debaixo da porta.

 

2.

Um presente,

o balaio não acorda.

 

3.

Nicinha só pensa

em Iemanjá enquanto dá voltas.

 

POR ISSO RESOLVI DAR MAIS UMA VOLTA NO QUARTEIRÃO

 

Por isso resolvi dar mais uma volta no quarteirão. Segui até o final da rua e desviei na Selva de Pedra.

O desvio, na verdade, era uma curva obrigatória. A Selva de Pedra não perdoava ninguém e aquele prédio sofria diariamente com isso.

De um lado, a Selva de Pedra. Do outro lado o mar, o precipício.

Ultimamente é a menor distância que tem decidido. Qualquer mudança perde para ela, mas o amor dá voltas e faz da idéia de destino um doloroso alívio.

Só isso: ela ainda estava lá quando terminei de dar a volta no quarteirão. Tinha sentado em uma espécie de meio-fio.

 

Quando voltei, fiquei feliz: ela fumava um cigarro que depois dividiu comigo.

Olhei durante anos aquele prédio.

Ela uma vez me escreveu uma carta dizendo que vivia cercada pela Guerra do Paraguai, que tinha pesadelos imaginando que todas as ruas do mundo tinham o nome de assassinos e que o Leblon um dia foi realmente assim.

Ela achava que o amor não dava voltas e que uma guerra era mais importante do que qualquer livro.

Olhei durante anos aquele prédio. Ultimamente é a menor distância que tem decidido.

Eu sei, ela não mora mais lá. Agora fuma cigarro escondido.

Por isso resolvi dar mais uma volta no quarteirão. Segui até o final da rua e desviei na Selva de Pedra. Olhei fixamente para o mar e toquei a campainha: só isso.

 

Ela não mora mais lá, coração, precipício.

  

AQUI EM CASA ESTAMOS TODOS BEM

 

Aqui em casa estamos todos bem. Desde que os meus pais morreram vivo com a minha irmã e os peixes do aquário. O apartamento do Edifício Santo Antonio é pequeno, mas confortável. Apesar de só ter um cômodo, sabemos nos movimentar bem. Uma vez a minha irmã me disse que vivemos sob um sistema de organização cartesiano. Quando ela terminou de falar senti que estava ficando velho. Um sistema de organização cartesiano. A minha irmã tinha crescido.

 

Ela disse aquilo enquanto via tv, sem deixar de olhar para a tela. Eu estava de costas, pensando em como ia voltar a pintar e no meu importante encontro de segunda-feira, as 13:00. Raramente nos vemos, eu e a minha irmã. As camas estão viradas para lados opostos. A dela na direção sul, na direção da janela, e a minha para o norte, na direção da mapoteca e da estante cheia de livros que roubei do meu pai.

 

Posso dizer que essa talvez tenha sido a coisa mais significativa que ele me ensinou. Durante a sua vida me tornei um mestre em roubar livros das suas inúmeras estantes. Me sentia o único ladrão de livros do mundo, e achava que o meu pai era meu estímulo.

 

A minha irmã me chama. Me pergunta como vai o quadro. Respondo para ela ter calma que em breve começarei a pintar. Ela me diz que já conhece essa história e que só vai acreditar vendo. A minha irmã sempre diz isso. Deve ser porque ela vive de frente para uma janela, a única do nosso pequeno apartamento.

 

Eu sempre detestei janelas. Só de pensar que existe uma nas minhas costas sinto como que estou dentro de um avião que está prestes a cair. Por isso a divisão aqui em casa foi fácil. Rapidamente chegamos a um acordo. A minha irmã detesta paredes, eu adoro.

 

Combinamos também que nunca mais vamos nos olhar de frente. Este acordo pode parecer estranho, mas para nós foi vital.

 

Entramos juntos no banheiro azul. Alguém me disse que eu entrei primeiro. Quando arrombei a porta com o meu pé ganhei a corrida. Mas depois disso entramos juntos. Acho que entramos juntos, demos meio-passo, olhamos para os velhos. Depois nos olhamos durante muito tempo. Acho que caiu uma lágrima do rosto da minha irmã, mas não tenho certeza. Acabamos desmaiando. Foi a última vez que olhei para os meus pais.  Foi a última vez que olhei para a minha irmã. Foi a última vez que ela me olhou.      

 

Vendemos a casa e abandonamos tudo que tinha lá dentro. Com o dinheiro da venda pagamos o enterro dos dois e até hoje estamos vivendo.

 

Na verdade, os velhos foram cremados. Combinamos com o irmão do meu pai que ele levaria em segredo as cinzas para serem jogadas embaixo de uma árvore do Jardim Botânico. Ele ficou tão confuso com a morte dos dois, que até hoje liga para cá pedindo para falar com o seu irmão. Quem atende responde que isso é impossível. Ele não diz nada e horas depois, invariavelmente,  toca a campainha do nosso apartamento. Entra, se senta na frente do aquário, acende um cigarro e  fica olhando os peixes. Apaga o cigarro, diz “ obrigado”  e vai embora.

 

Assim como eu, ele não olha na cara da minha irmã, nem na minha.

 

Quando eu e a minha irmã éramos crianças todo mundo dizia para nós que tínhamos a cara dos nossos pais. E o pior, é a mais pura verdade. Por isso, quando acordamos depois do desmaio, ao lado da porta do banheiro azul, cada um olhou para um lado oposto. Sabíamos que nunca mais poderíamos nos olhar de frente, que nossos rostos tinham morrido junto com os nossos pais e que seria um risco muito grande a gente voltar a se olhar. Raramente conversamos sobre isso, até mesmo porque já assumimos completamente nossas direções, inclusive com o aval do meu tio.

 

Ao contrário de mim, a minha irmã sonha em voz alta. Isso não chega a ser um incômodo, muito pela contrário. Enquanto ela dorme temos conversas intermináveis, parecidas com aquelas do meu pai com o meu tio. Uma vez ela me disse que pensava muito em mim e no meu rosto. Em determinado momento esse pensamento se tornava real, ela me via e imediatamente o seu corpo virava cinza, voava bem alto e ia parar embaixo de uma árvore do Jardim Botânico.

 

Nem sempre foi assim.

 

Quando os meus pais estavam vivos eu pintava quase diariamente.

 

A minha irmã sonhava baixinho.

 

Depois da morte deles tudo mudou completamente. Nunca mais consegui pintar, mas para o meu alívio o volume dos sonhos da minha irmã subiu consideravelmente.

 

A casa onde vivíamos agora abriga um casal de advogados e penso que lá eles vivem bem.

 

A minha irmã me chama outra vez, me pressiona sobre o quadro. Não sei o que responder.

 

Hoje acordei com um recado que estava sendo deixado na secretária eletrônica. A minha irmã não acordou, continuava exausta com os seus sonhos. O recado avisava que a minha primeira namorada estava internada em uma clínica, bem perto aqui de casa. A pessoa dizia que ela estava internada no quarto 806, com problemas nos rins.

 

Dei um pulo da cama, apaguei o recado, coloquei a mesma roupa que tinha usado no dia anterior e fui visitá-la.

 

A minha primeira namorada estava usando um pijama azul. A sua mãe não se lembrava de mim. Conversamos  alguns minutos sobre o que ela tinha. Perguntei para a minha primeira namorada para que serviam os rins. Ela respondeu que serviam para as pessoas usarem pijamas azuis. Ela continuava igual.

 

De repente, o tubinho que injetava soro na minha primeira namorada começou a vazar pelo seu braço, a mãe dela chamou uma enfermeira.

 

A enfermeira me pareceu uma pessoa fantástica, era gorda e tinha um aspecto de açogueira. Daquelas que nos passam força, a impressão de que qualquer problema é irrelevante. Fui embora tranquilo.

 

Quando cheguei em casa a minha irmã não estava. Aquilo me causou uma enorme agonia. Sabia que quando ela chegasse em casa ia me cobrar sobre o quadro. Acendi um cigarro, busquei uma lata de água tônica na geladeira e começei a escutar um disco do Bob Dylan pensando que aquilo poderia me ajudar.

 

O cigarro acabou e eu iniciei a organização das coisas. Tinha a impressão de que não pintaria coisa alguma, mas queria que pelo menos as coisas ficassem arrumadas para que eu pudesse olhar para elas de frente. Limpei a mapoteca, escolhi uns papéis, separei as tintas, limpei os pincéis.

 

Se a minha mãe estivesse viva ela ia se orgulhar se simplesmente visse as coisas assim. Ela sempre dizia que tudo na vida era consequência de alguma iniciativa. Ela sempre tomava água tônica.

 

Começei a escrever, tentando chegar a uma idéia que me levasse a pintar, esquecer que estava morando em um pequeno apartamento no Edifício Santo Antonio com a minha irmã, administrando cirurgicamente o dinheiro que tinha sobrado da venda da casa onde morava com os meus pais.

 

O disco do Bob Dylan acabou e eu coloquei ele para tocar outra vez. O disco era a trilha sonora que Dylan fez para um filme chamado Pat Garret & Billy the Kid. Eu adorava aquele disco. Quando começou a tocar a segunda música, pela segunda vez, senti uma alegria tremenda. Era estranho porque a música era profundamente triste. Mas o fato é que me lembrei de que quando pintava escutava várias vezes o mesmo disco. Cada série de pinturas me remetia diretamente a tal disco e sempre foi assim.

 

Mas agora era diferente, eu estava brigando com a música, não eramos mais parceiros. É terrível ter Bob Dylan como inimigo. Troquei o disco e acendi outro cigarro. A coisa se complicou. Começei a lembrar cenas do filme.

 

Pensei que a música que escutava não tinha nada a ver com nada. Senti que estava irremediávelmente perdido. Coloquei de novo o disco do Bob Dylan e, enfim, as coisas começaram a funcionar.

 

Voltei a me concentrar para a reunião de segunda-feira, as 13:00. Nesta hora e neste dia eu iria reencontrar meu antigo professor de pintura. Sabia que se chegasse lá de mãos vazias iria decepcioná-lo profundamente. E que certamente nunca mais conseguiria voltar a pintar.

 

A conversa que tivemos no telefone foi breve. Ele me ligou porque tinha encontrado em um sebo uma coleção completa da revista Sétimo Céu e se lembrou de mim porque eu era viciado em fotonovelas. A gente não conversava faz anos. A última vez tinha sido logo depois da morte dos meus pais. Combinamos que eu iria visitá-lo no seu ateliê para mostrar o que vinha produzindo.

 

Agora, só consigo escutar repetidamente o mesmo disco e pensar que estou tentando pintar alguma coisa. Não tenho nada, além de latas vazias de água tônica, um punhado de lembranças dos meus pais, uma irmã que não me olha na cara e alguns peixes.

 

Olho para eles. Me lembro das visitas do meu tio. Me lembro da minha irmã. Depois que os meus pais morreram, as poucas vezes que conversei com ela frente a frente foram com esse aquário no meio.

 

As vezes penso que tudo que consigo ver é filtrado por esse aquário. Tento pintá-lo. Não consigo.

 

Nesse momento, escuto um barulho de chave abrindo porta. Minha irmã chega da rua e vai logo dizendo “parabéns”. Diz que apesar de tudo estou com um aspecto ótimo. Pede para que eu coloque os fones no ouvido para escutar música.

 

O filme que estava longe agora parece estar  dentro da minha cabeça.

 

A minha irmã começa a falar com uma amiga pelo telefone. A minha irmã fala com a amiga em voz alta e a conversa misturada com a música que escuto me tortura. A minha irmã começa a contar para a amiga que foi passear na beira da Lagoa com um cara que ela conheçeu no trânsito. Os dois estavam em dois táxis diferentes que bateram. O táxi da minha irmã bateu no outro. Os taxistas começaram a discutir e depois começaram a brigar e rolar no meio da rua. A minha irmã conta para a amiga que o cara sugeriu que eles pegassem juntos o primeiro táxi que aparecesse.

 

A minha irmã conta para a amiga que o cara argumentou que eram seis horas da tarde e que nessa hora era difícil arranjar algum táxi vazio. Os dois taxistas estavam sangrando, cada um pior que o outro. Apareceu um táxi vazio. Os dois entraram no mesmo táxi e depois foram passear na Lagoa. A minha irmã desliga o telefone. A tortura acaba.

 

Volto para a mapoteca, olho os pincéis, mas ao invés deles agarro uma caneta e começo a escrever. Escrevo: aquário. Risco a palavra e escrevo: táxi. Não consigo pintá-lo e escrevo: tortura.

O telefone toca. É a telefonista da clínica, minha primeira namorada morreu. Escrevo: amor. Não consigo pintá-lo. Amasso o papel, acendo um cigarro e penso fixamente em um pijama azul.

 

A minha irmã pergunta quem era no telefone. Uma vez ela me perguntou se isso me incomodava. Eu disse que não. Sempre dizia quem era no telefone. A minha irmã me pergunta de novo quem era. Respondo que era a minha primeira namorada propondo um reencontro e que eu, sem saber o que dizer, tinha falado que tudo bem. A minha irmã não diz nada. Aqui em casa a maneira mais prática de saber as coisas é escutando a conversa do outro no telefone. Sempre sabemos as coisas assim. E ponto.

 

Muitos amigos dizem que a gente leva uma vida maluca e que depois da morte dos nossos pais encontramos um código de comunicação bizarro. Ninguém conhece a minha irmã. Ninguém me conhece.

 

Eu sempre achei que sabia pintar e que a minha vida seria a pintura. Sempre achei que o meu tio era o máximo e que eu adorava aviões. Até hoje guardo os desenhos que o meu tio fazia. Meu tio desenhando aviões.

 

O tempo passou. Não consigo mais voar. Os  quadros que pintei estão em gavetas enormes, espalhados dentro da mapoteca. E eu estou aqui, em cima deles, escutando um disco do Bob Dylan e tentando desesperadamente pintar um pijama azul.

 

A minha irmã me chama, perguntando o que vamos jantar. A música dentro da minha cabeça é intensa, não me deixa escutar nada mais. A minha irmã me pergunta em qual dos dois encontros eu estou pensando. A música termina e justo no intervalo, antes da próxima faixa, ela repete a pergunta.

 

Eu respondo: vamos jantar rins.

 

Ela me diz: você nunca conseguir conversar sobre qualquer coisa objetiva.

 

Eu me lembro da conversa que tive com a minha primeira namorada sobre a função dos rins e falo para a minha irmã: a minha primeira namorada morreu.

 

A minha irmã se levanta em silêncio e vamos juntos  cada um para o seu lado no aquário.

 

Ela me diz: você se lembra do dia em que aquela sua amiga esteve aqui em casa com uma bússola e que descobrimos que a janela estava virada para o sul e a parede para o norte?

 

Respondo: acho que sim.

 

Ela me diz: você se lembra daquela vez em que eu cheguei tarde do trabalho e que você estava dormindo no chão, sem querer dormir, com medo de ficar em casa sozinho?

 

Respondo: não sei.

 

Ela me diz: por que você não disse a verdade quando eu perguntei quem era no telefone?

 

Respondo: eu disse a verdade, na verdade ela não morreu, está muito bem e me chamou para sair, e eu simplesmente disse - tudo bem.

 

Depois disso a minha irmã ficou em silêncio e eu saí para comprar cigarros. Desci a ladeira pensando que tudo aquilo era demais para mim, que eu ainda tinha uma longa noite pela frente e prometi a mim mesmo nunca mais pensar na minha primeira namorada e no seu pijama azul. Concluí que eu não tinha vocação para coveiro e um monte de outras bobagens que distraíram a minha mente e me deixaram em condições suficientes para caminhar até o Bar São Carlos, pedir um maço de Malboro e conferir o troco.

 

Quando voltei para casa a minha irmã não estava mais lá. Em cima da mapoteca tinha deixado um papel onde estava escrito: não escreva, pinte. Imediatamente peguei o bilhete e fui guardá-lo em uma pasta transparente onde guardo a minha coleção de bilhetes, desenhos de aviões, cartas de amor e ingressos de shows de bandas que ví e que sei que nunca mais vou voltar a ver.

 

Tentei não mexer na pasta, mas não consegui me controlar. Sabia que o quadro que eu tinha que pintar para a reunião de segunda-feira estava ali dentro. Quando revi os  desenhos do meu tio tive uma certeza, talvez a primeira da minha vida.

 

Voltei para a mapoteca, agarrei outra vez a caneta e no verso do bilhete que a minha irmã tinha escrito, escrevi: avião.

 

Liguei o aparelho de som, coloquei o disco que Bob Dylan fez para o filme Pat Garret & Billy The Kid e começei a pintar o quadro.

 

Já era de noite e eu estava sozinho em casa. A minha irmã devia estar em algum quiosque na beira da Lagoa, tomando cerveja com o cara que ela conheceu no táxi. Ela inclusive já devia ter dito a ele que era casada com um pintor muito conhecido e que aquele seria o último encontro entre os dois. Ela sempre dizia isso, com uma pequena variação quanto ao momento, dependendo do seu interesse pela pessoa. Imagino que deve ser impossível conhecer a minha irmã.

 

No fundo, ela era apaioxonada por um amigo dos tempos da faculdade. Mas, inexplicavelmente, tinha a sensação de que aquilo era uma história de amizade que não deveria ser modificada. Um dia, não pouco tempo atrás, abrimos uma exceção e conversamos sobre a sua história com o amigo dos tempos da faculdade. Ela me disse que eles não eram mais amigos, mas não quis me dizer o porque.

 

A ausência da minha irmã me incomoda. Percebi que, definitivamente, não queria estar sozinho e olhei para o papel que tinha começado a pintar. O papel estava azul e me dei conta de que um avião não caberia ali.

 

Aquele pequeno papel que estava na minha frente nunca poderia ser um céu. Peguei a caneta e escrevi com raiva no papel azul: céu. Caminhei até o aquário e acendi um cigarro.

Minha irmã sempre me diz que eu estou fumando demais e que além disso se ela não cuida dos peixes ningúem cuida. Minha irmã sempre tem razão. E eu não queria ter que escutar que era uma vergonha eu ter deixado de pintar depois da morte dos velhos e que eu não estava fazendo nada da vida.

 

Lembro que uma vez ela falou no telefone para alguém que eu vivia preso dentro dos pensamentos que eu mesmo inventava para continuar sem fazer nada.

Levantei e fui até a mapoteca. Peguei o papel azul onde tinha escrito céu e joguei pela janela na direção sul.

 

Caminhei até o aquário e dei comida para os peixes. Sabia que tinha que aprender a controlar os pensamentos e sabia mais ainda que não podia nunca desistir de pintar. Consegui alcançar um pedaço de papel e colei ele do outro lado do aquário, de uma maneira tal que todo o vidro onde a minha irmã sentava em frente, quando tinhamos uma coisa importante para conversar, agora estava coberto.

 

Voltei para o meu lado e começei a olhar o aquário de novo. Os peixes nadavam sobre um fundo branco. Apaguei o cigarro. Estava pronto para a reunião.